8 de fev de 2012

EXPOSIÇÃO HUMANA AO MERCÚRIO NA REGIÃO OESTE DO ESTADO DO PARÁ/ BRASIL

                                                                                                                                                                  Os primeiros registros da garimpagem de ouro na Amazônia remontam ao século XVIII. Essa atividade intensificou-se na década de 70 do século XX, com a construção das rodovias Transamazônica e de Cuiabá- Santarém.
Até a segunda metade desta década, a lavra garimpeira na Amazônia era, exclusivamente, manual e se localizava, tradicionalmente, nas planícies de inundação dos cursos de água, nos paleoaluviões e, mais raramente, em aluviões ativos. Apoiada em equipamentos rudimentares como pás e picaretas, o mercúrio só era usado para a concentração final do minério. A partir daí, o trabalho passou a ser desenvolvido com o auxílio de maquinaria. Em alguns locais como nos rios Madeira e Tapajós, a garimpagem é igualmente feita no próprio leito ativo das drenagens com a utilização de balsas e dragas, sendo assim, a agressão ao ecossistema aquático é mais grave e o assoreamento do rio mais rápido1.
No fim da década de 70 do século passado, o preço do ouro disparou no mercado internacional, atingindo um valor recorde. Isso resultou na chamada “corrida do ouro” em várias partes do mundo, inclusive no Brasil2. A Bacia do Rio Tapajós, principal tributário do Amazonas, foi responsável na década de 80 por cerca de 50% do ouro produzido no Brasil, com a maior concentração de garimpos localizados nos municípios de Itaituba e Jacareacanga3. De acordo com dados oficiais, essa bacia produziu 98,2 toneladas de ouro em 1990 e 49 toneladas em 19984.
Nos últimos anos, houve retração da atividade causada pela exaustão dos depósitos aluvionares conhecidos e por dificuldades tecnológicas na exploração dos depósitos primários de ouro5. Segundo dados da METAMAT – Cia, o Estado do Pará representa uma das regiões onde se concentram os maiores garimpos de ouro no Brasil6.
Ao longo dos últimos 20 anos, anualmente, são despejados na natureza cerca de 100 toneladas de mercúrio utilizados nos garimpos de ouro da Amazônia7. Entretanto, outras atividades humanas capazes de liberar o metal foram aumentando, gradualmente, nos últimos anos, como o desmatamento, as queimadas, as barragens e a construção de hidrelétrica. Tais fenômenos podem ter contribuído para a exposição ocupacional e ambiental ao mercúrio na região amazônica8, 9.
Embora sejam conhecidas as interações de determinados fatores na gênese de processos patológicos, os dados epidemiológicos existentes para as áreas ribeirinhas da Amazônia, são ainda pouco precisos e dispersos. Nas últimas décadas, alguns estudos desenvolvidos em comunidades da região amazônica, com intuito de investigar a saúde das populações, procuram relacionar alterações fisiológicas com os níveis de exposição ao mercúrio8, 10, 11.
Embora reconhecido, o problema de exposição ao mercúrio na Amazônia tem que estar baseado em trabalhos que examinem com detalhes estudos realizados com humanos. Considerando que a Amazônia Legal representa cerca de 58% do território nacional (4,9 milhões de km2) com população de 19 milhões de habitantes de diversas etnias (12% da população brasileira), as generalizações acerca de qualquer fenômeno devem ser evitadas em virtude de suas características peculiares.
A região Oeste do Estado do Pará apresenta um histórico de intensa atividade garimpeira arcaica com grande derramamento de mercúrio no ambiente.

DISCUSSÃO
A região do Tapajós é formada por muitos povoados típicos da Amazônia, na forma de vilas e aglomerados rurais, localizados às margens do rio (Figura 1). Essas comunidades ribeirinhas possuem características semelhantes, quanto aos aspectos demográficos, de saúde, saneamento e hábitos culturais. A alimentação é composta por feijão, arroz, farinha, milharia e, às vezes, carne de boi ou galinha, mas o pescado, ainda, representa a principal fonte protéica.
A alimentação é uma importante via através da qual o mercúrio, principalmente na sua forma orgânica, é incorporado. Essa é uma via de alcance amplo, afetando todo tipo de populações ribeirinhas, incluindo as indígenas, cuja principal fonte de proteína é o pescado, consumido como um hábito cultural 10.
O grau de contaminação dos peixes depende de sua posição na cadeia alimentar, do tamanho e da idade. Os peixes herbívoros (tambaqui, jaraqui, pirapitinga, pacu) possuem níveis menores de contaminação que os peixes carnívoros (dourada, filhote, piranha, tucunaré e pescada) 12,13,14.
Fatores ambientais, associados à exposição ao mercúrio, podem tornar essas populações vulneráveis. A freqüência relativa de manifestações neurosensoriais como, por exemplo, o desempenho motor observado em comunidades investigadas, alerta para a necessidade de estudos controlados, com o objetivo de identificar a relação direta entre a presença de mercúrio no organismo e as manifestações clínicas observadas 15.
Uma boa forma de análise dos estudos existentes sobre contaminação mercurial na Amazônia é a classificação das populações estudadas em: populações expostas ao mercúrio que são áreas de garimpo onde a principal via de intoxicação é a ocupacional pela inalação de vapor de mercúrio e intoxicação ambiental onde temos: populações sob influência do mercúrio, que são aquelas localizadas às margens dos rios próximas a grandes garimpos onde a principal via de incorporação do mercúrio é decorrente da alimentação; populações residentes em áreas de risco são aquelas regiões localizadas às margens de rios tributários de outros que banham garimpos; a incorporação do mercúrio também ocorre através da alimentação. Essa análise pode ser feita comparativamente com populações culturalmente parecidas e com mesmo padrão de vida, mas que não possuem contato com o mercúrio, nem por exposição ocupacional nem alimentar, caracterizando assim as regiões controles.
A maioria das comunidades ribeirinhas, caracterizadas por descrições socio-econômicas semelhantes entre os diversos autores 8,10,16,17,18,19,20,21, apresentaram uma dieta alimentar pouco variada e muito pobre em verduras e legumes, e com um consumo elevado de peixe como principal fonte protéica.
O cabelo é um importante material para a determinação dos níveis de exposição ao mercúrio. Deve-se ressaltar que a quantidade de mercúrio determinada no cabelo reflete um passado de exposição, uma vez que, para ocorrer a fixação do mercúrio no cabelo e o posterior crescimento deste, necessita-se de certo tempo, portando o nível de mercúrio registrado em cabelos que possuem o comprimento de um centímetro, de sua ponta a inserção no couro cabeludo, revela o nível de exposição do mês anterior.
Os dados do monitoramento da contaminação ambiental por mercúrio na região amazônica foram gerados de forma não invasiva, através do estudo do teor de mercúrio total presente nos cabelos de populações ribeirinhas do oeste do Estado do Pará.
No quadro 1 estão representados os valores dos níveis de mercúrio detectados na população ribeirinha da Amazônia, sendo esses níveis, possivelmente, alcançados por eventuais fenômenos de exposição ambiental.

                                                                          Fonte: Revista Paraense de Medicina

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