Quem cuida do Tapajós: o protagonismo de adolescentes indígenas na Amazônia
Por meio de Núcleos de Cidadania de Adolescentes (NUCAs), juventudes assumem papel central na defesa do futuro do planeta
A região do Tapajós, na Amazônia paraense, é tradicionalmente organizada em três grandes faixas territoriais (Alto, Médio e Baixo) que refletem características geográficas, culturais e socioambientais distintas.
O Alto Tapajós, associado principalmente ao município de Jacareacanga (PA), é marcado por extensas áreas de floresta e forte presença do povo Munduruku. Nessa região, os territórios indígenas enfrentam desafios como o avanço do garimpo e desmatamento ilegais, que impactam diretamente o meio ambiente e os modos de vida tradicionais.
No Médio Tapajós, onde se situa Itaituba (PA), o território vive uma dinâmica de transição. Atividades econômicas intensas convivem com comunidades indígenas e ribeirinhas que buscam preservar seus modos de vida e garantir proteção socioambiental.
Em Santarém (PA), no Baixo Tapajós, território com grande diversidade étnica, populações tradicionais e movimentos indígenas convivem com processos de urbanização e turismo – por vezes predatório. Territórios como o Borari, em Alter do Chão, se destacam pela afirmação identitária e pela defesa do território nesse contexto.
As três regiões compartilham desafios como o acesso desigual às políticas públicas, invisibilização de adolescentes e jovens indígenas e impactos cada vez mais intensos das mudanças climáticas sobre seus territórios.
Escuta e participação cidadã como estratégia de transformação
Para mudar o cenário regional e garantir a participação de adolescentes em discussões sobre meio ambiente, mudança climática e outros temas, o UNICEF Brasil tem fortalecido estratégias de participação cidadã por meio de redes e iniciativas territoriais, reconhecendo adolescentes como elemento central para a construção de políticas mais inclusivas e eficazes.
Uma delas é o Núcleo de Cidadania de Adolescentes (NUCAs), iniciativa criada para que municípios garantam aos adolescentes locais seu direito de participar e de ser ouvidos nas discussões que os impactam – essa participação, inclusive, é um direito fundamental para o desenvolvimento individual e o fortalecimento da cidadania, garantido por marcos internacionais e pela legislação brasileira, como a Constituição Federal (CF) e o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).
O primeiro passo do trabalho na região do Tapajós foi o início do diálogo com lideranças indígenas para construção conjunta de atividades. Mobilizadores locais foram identificados nas três cidades, atuando como ponte entre adolescentes, comunidades e instituições parceiras. Esse processo garantiu que as ações fossem culturalmente adequadas, territorialmente contextualizadas e, sobretudo, legitimadas pelos próprios povos.
Entre agosto de 2025 e março de 2026, mais de 200 adolescentes e jovens participaram de uma iniciativa do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) que uniu participação cidadã, educação ambiental e valorização cultural. Mais do que números, o processo trouxe o autorreconhecimento de adolescentes como sujeitos de direitos e agentes de transformação.
Entenda as atividades realizadas:
- Promoção de um encontro emAlter do Chão, no município de Santarém, que reuniu mais de 50 adolescentes e jovens indígenas dos três municípios, dando início à construção dos planos de participação cidadã.
- Desenvolvimento de planos de ação voltados à proteção do território e ao enfrentamento das mudanças climáticas.
- Criação de três NUCAs indígenas, reconhecidos pelas prefeituras de cada cidade.
- Realização de oficinas formativas que trabalharam temas ambientais a partir da realidade dos adolescentes indígenas, conectando clima, cultura e modos de vida. As oficinas estimularam reflexão crítica, fortalecimento de vínculos e construção de soluções coletivas para os desafios dos territórios.
- Em Santarém (PA), as atividades conectaram adolescentes indígenas que vivem entre a aldeia e o contexto urbano. As oficinas abordaram temas como uso consciente da água e impactos das mudanças climáticas em suas vidas. As atividades também resultaram na produção de conteúdos para redes sociais, fortalecendo a comunicação entre pares e ampliando o alcance das mensagens.
- Em Jacareacanga (PA), as atividades tiveram forte conexão com identidade, cultura e preservação ambiental. As oficinas abordaram meio ambiente e cultura, valorização dos saberes tradicionais e promoção do protagonismo de adolescentes na defesa do território. Como resultado, os adolescentes passaram a identificar desafios ambientais concretos — como desmatamento, poluição e mudanças climáticas — e a propor soluções dentro da própria comunidade.
Impactos para além dos números
A experiência no Tapajós mostrou que não existe solução única para desafios complexos, especialmente quando eles estão se intensificando devido à mudança do clima. Ela também reforçou que políticas públicas mais eficazes precisam ser territorializadas, culturalmente sensíveis e construídas com participação real.
Quando adolescentes indígenas têm espaço para participar, propor e agir, eles fortalecem suas comunidades e ajudam a construir respostas mais justas e sustentáveis para todo o planeta.
Para ações de engajamento e promoção do direito à cidadania de adolescentes e jovens indígenas na Região do Tapajós e Território Munduruku, o UNICEF Brasil conta com a parceria estratégica de Takeda.

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